o que ainda chamamos de escrever?

No ensaio Distant Writing: Literary Production in the Age of Artificial Intelligence, Luciano Floridi propõe uma inversão poderosa: o autor deixa de ser o artesão que executa cada frase e passa a atuar como arquiteto do texto. A máquina escreve. O humano projeta, decide, seleciona.

Trata-se de um pensamento inovador e deslocado do tom dominante no debate atual. Em vez de demonizar a tecnologia ou defendê-la de forma acrítica, Floridi muda o eixo da pergunta, argumentando que não se trata de saber se a IA “mata” a literatura, mas como ela reorganiza a autoria e o próprio ato de escrever.

Na visão do autor, isso não elimina o escritor. Ao contrário, a responsabilidade ética, estética e intelectual continua sendo humana. Assim, a tecnologia entra como uma ferramenta, não afetando a autoria.

Essa leitura contrasta fortemente com o cenário que vemos hoje, não apenas no campo literário, mas também no meio acadêmico, onde o uso de ferramentas de IA na organização de ideias, na escrita e até na pesquisa enfrenta forte resistência. Há um movimento expressivo de rejeição, vigilância e tentativa de contenção, como se a mediação tecnológica, por si só, anulasse o valor intelectual do texto.

Mas, gostemos ou não, isso já é uma realidade.

A IA já está sendo usada para estudar, pesquisar, estruturar argumentos, revisar textos e escrever, dentro e fora da academia e da literatura. A resistência existe, é compreensível, mas não impede o avanço e o uso da tecnologia.

O debate, portanto, talvez não seja mais se a IA deve ou não ser usada, mas como, até onde e com quais consequências.

E aqui está, ao meu ver, o ponto mais desconfortável. O uso de IA não transforma apenas a produção do texto, ele transforma a cognição humana. Muda a forma de pensar, de aprender, de organizar o raciocínio, de narrar o mundo. Muda a relação entre linguagem, tempo e esforço intelectual. E, nesse cenário, surgem perguntas inevitáveis:

Ainda será necessário ter boa redação para ser escritor? Ou bastará formular bons prompts e ter uma boa ideia? Onde ficam o erro, a hesitação, o tempo da escrita? Isso ainda carrega a alma do que chamamos de literatura?

E talvez a pergunta mais difícil de todas: qual é o limite saudável do uso da IA no processo criativo e de escrita?

Floridi não oferece respostas a definitivas, oferece apenas uma forma diferente, e um tanto incômoda, de pensar o problema.

E você, o que acha? Não deixe de refletir e participar desse debate, pois ele construirá a literatura do futuro (ou será do presente?).

A Rota. 

Texto de Floridi disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=5232088