
Li. Não gostei. Vida que segue.
Vencedor do Prêmio Jabuti – Melhor Romance Literário (2025)
Não consegui compreender, com clareza, qual foi o real propósito do livro. A leitura não me agregou, nem estética, nem emocional, nem intelectualmente.
Tony Bellotto não é apenas guitarrista e compositor de sucesso, tampouco apenas o marido de Malu Mader. É um escritor prolífico, com mais de 30 anos de carreira literária, especialmente reconhecido por romances policiais. Entre seus títulos mais conhecidos estão Bellini, A Esfinge (seu romance de estreia) e Dom, já publicado pela Companhia das Letras. Agora, com Vento em Setembro, entra para a seleta lista de vencedores do Prêmio Jabuti.
Comecei a leitura no fim de novembro, avancei cerca de 30%, interrompi e só retomei no dia 1º de janeiro. Esse intervalo, por si só, já antecipa bastante da minha experiência com o livro.
Apesar de estruturado em capítulos curtos, com múltiplos personagens e tramas que se entrelaçam em forma de quebra-cabeça, o romance não consegue capturar nem sustentar a atenção. Na minha leitura, há problemas estruturais relevantes.
O primeiro deles é a fragilidade na construção dos personagens. Há muitos personagens — demais, inclusive — e vários entram em cena apenas para desaparecer sem qualquer desenvolvimento posterior. Não há aprofundamento psicológico consistente, nem mesmo em situações que exigiriam densidade emocional, como a morte de um filho por suicídio.
O segundo problema é o excesso de clichês. Encontramos o playboy confuso que nunca precisou trabalhar, a prostituta incestuosa, o escritor de um único livro usado como artifício para pichações “misteriosas”, o latifundiário machista que promove orgias em sua fazenda e o único personagem homossexual do livro, definido quase exclusivamente por viver com HIV. Esses arquétipos não são tensionados, subvertidos ou problematizados, apenas (mal) reproduzidos.
O terceiro ponto é o tratamento superficial de temas sensíveis e complexos. Virgindade, machismo, prostituição, HIV e religião aparecem de forma dispersa, quase como elementos jogados na narrativa, sem o cuidado, a profundidade ou a coerência necessários para que façam sentido dentro da história.
Por fim, a escrita. Uma escrita simples não é, por si só, um defeito — isso é importante dizer. Aqui, porém, a simplicidade escorrega para o lugar-comum. A linguagem é previsível, os cenários pouco elaborados e os personagens carecem de vida própria, refletindo a mesma superficialidade da trama.
Acompanho o Prêmio Jabuti há muitos anos e confesso que me causa espanto ver Vento em Setembro premiado na mesma categoria que consagrou obras como Torto Arado (2020), O Pai da Menina Morta (2019), O Clube dos Jardineiros de Fumaça (2018) e Quarenta Dias (2015), entre tantos outros romances literários de enorme força estética e narrativa.
Nada contra Tony Bellotto, mas, para mim, este livro não justifica o lugar que ocupou.
Li. Não gostei. Vida que segue.
A Rota.
