Poucos romances conseguem falar de família sem cair na idealização fácil ou na amargura definitiva. Arroz de Palma, de Francisco Azevedo, lançado em 2008, é um desses livros raros.

Com uma escrita sensível, o autor constrói uma narrativa sobre pertencimento, memória, passagem do tempo e finitude.

A história começa com Antonio, nosso narrador, ainda menino, encantado pelas histórias de tia Palma. É dela a primeira grande narrativa fundadora do romance: o casamento dos pais de Antonio, celebrado em 1908, em Viana do Castelo, no norte de Portugal. Tia Palma, tocada pelo momento, em um gesto ao mesmo tempo excêntrico e simbólico, recolhe do chão doze quilos de arroz e os oferece como presente de casamento, acompanhados de uma bênção que atravessa todo o livro:

Este arroz — plantado na terra, caído do céu como o maná do deserto e colhido da pedra — é símbolo de fertilidade e eterno amor. Esta é a minha bênção.”

Desde esse início, Arroz de Palma deixa claro que não se trata apenas de contar a história de uma família, mas de refletir sobre como famílias se formam, se sustentam e, muitas vezes, se dispersam. A metáfora da comida — e da cozinha — atravessa todo o romance. Família é de fato um prato difícil de preparar. Como observa o autor: “Pouco importa a qualidade da panela; fazer uma família exige coragem, devoção e paciência.”.

A narrativa acompanha a decisão dos pais de Antonio, acompanhados de tia Palma, de migrar para o Brasil em busca de uma vida melhor, trazendo uma das minhas frases favoritas: “Mudar, mesmo para pior, faz bem à saúde do corpo e da alma.”.

Ao atravessar gerações, o livro traz reflexões sobre o tempo, a memória e o esquecimento. Segundo o autor, enquanto os dados do planeta cabem todos em um computador, a memória afetiva do mundo vai se apagando, a cada morte se apaga um acervo riquíssimo de experiências e sensibilidades.

Entre os capítulos mais belos do livro está o intitulado Cada Um Toma Seu Rumo. Francisco Azevedo descreve com precisão o que tantas famílias vivem: as pessoas mudam, se casam, criam novos núcleos, agregam outros à mesa, têm filhos, se afastam. Os lugares à mesa se rearranjam. A narrativa atinge um ponto de inflexão que evidencia como os laços familiares, quando não continuamente cultivados, tendem à dispersão. Nesse sentido, e como adverte tia Palma:

A confraternidade não é assim tão simples, Antonio. Há que se estar propenso a ela. E a propensão vem com o convívio, com o procurar manter os vínculos mesmo à distância.”

Sem antecipar os acontecimentos, vale destacar que o arroz permanece como fio simbólico central ao longo de toda a obra. Mais do que alimento ou memória, ele funciona como laço afetivo, como bênção transmitida no tempo, como um elo ao qual se recorre sempre que surge a necessidade de reunir, ainda que provisoriamente, aquilo que o tempo insiste em afastar.

Arroz de Palma é um romance sobre como vínculos não se mantêm sozinhos. Sobre como família não é um dado fixo, mas um processo, feito de aproximações, afastamentos, perdas, insistências e gestos simbólicos que resistem ao tempo.

Para mim, que moro longe da família e dos amigos há muitos anos, a leitura foi profundamente tocante.

A escrita de Francisco Azevedo é rápida, sensível, composta por capítulos e frases curtas, mas carregadas de densidade. O livro propõe uma reflexão profunda sobre conexões humanas, sobre o que nos forma, o que permanece e o que se perde com o tempo e com a morte.

Foi, sem exagero, o melhor livro que li em 2025, que ficará gravado em minha memória por muitos anos.

Um dos grandes romances da literatura contemporânea brasileira.

Alguns livros passam. Outros ficam.

Arroz de Palma fica.

A Rota.